A Revolta da Chibata Resumo

Revolta da Chibata – No ano de 1910, enquanto a Europa vivia os antecedentes da Primeira Grande Guerra, que teve seu início 4 anos depois, em 1914, o Brasil acabara de eleger um novo governante para comandar o país. Por não entrarem em um consenso para um só candidato, como normalmente faziam, a oligarquia mineira e a oligarquia paulista romperam relações. Nesse cenário, os paulistas se aliaram com a Bahia e lançaram Rui Barbosa como candidato, enquanto os mineiros se aliaram com o Rio Grande do Sul, lançando o marechal Hermes da Fonseca para a presidência, personagem que acabou ganhando as eleições.

Hermes da Fonseca possuía uma personalidade forte, e julgava ser possível acabar com as oligarquias que comandavam toda a política no país. Essas ações, porém, desencadearam algumas revoltas no Brasil, como a revolta de Juazeiro, no Ceará, liderada por uma grande figura da história do Nordeste, Padre Cícero. Contudo, o governo do marechal não teve apenas revoltas quanto às intervenções nas oligarquias, mas também foi marcado pelo maior movimento promovido por marinheiros na história do Brasil: a Revolta da Chibata.

Causas da Revolta da Chibata

A Revolta da Chibata foi um movimento promovido por indivíduos que ocupavam os baixos cargos na Marinha brasileira do ano de 1910. Sua ocorrência se deu no Rio de Janeiro, se estendendo entre os dias 22 e 27 de novembro.

Pensando em um cenário maior do ano de 1910, podemos observar que essa revolta ocorreu apenas 22 anos depois da promulgação da Lei Aurea, isto é, praticamente duas décadas após a extinção oficial da escravidão no Brasil. Desse modo, os negros eram vistos ainda como a escória da sociedade por muitos, e os empregos que conseguiam pós libertação não eram, na maioria das vezes, dignos.

Diante disso, é importante frisar que a grande maioria dos baixos cargos da Marinha brasileira era composto por negros recém libertados da escravidão, e estes ainda eram tratados com desdém, principalmente por oficiais de alto escalão do militarismo no Brasil. Isso era refletido nas condições de trabalho desses indivíduos, os quais eram forçados a rotinas pesadas de trabalho em troca de um baixo salário.

Além disso, estes ainda sofriam punições por questões disciplinarias ou simplesmente por insatisfação de seus superiores. As punições eram, em grande parte, feita por meio de castigos físicos, dos quais a chibatada, também muito comum na época da escravidão, continuava sendo a mais realizada (essa prática deu o nome para a Revolta).

A partir dessa situação deplorável, a qual já gerava um sentimento de revolta nos marinheiros, o movimento ainda teve dois estopins: O aumento salarial dos oficiais da Marinha, o qual não fora repassado para os cargos mais baixos e a chegada de dois novos navios (belonaves), intitulados de “Minas Gerais” e “São Paulo”, que eram bem maiores e dariam mais trabalho para os marujos.

A Revolta da Chibata

Em meio às péssimas condições de trabalho e seguidas punições físicas promovidas pelos seus superiores, Marcelino Rodrigues de Menezes, um marinheiro negro, entrou um conflito com um oficial de seu navio, o Minas Gerais. Essa briga resultou em um castigo severo para Marcelino, que chegou a desmaiar após ser ferido com 250 chibatadas nas costas, em uma época que o usual era 25.

Apesar da situação lamentável de seu companheiro, esse se tornou o momento perfeito para um motim que já vinha sendo planejado há algum tempo por um grupo de marujos: O Comitê Geral da Revolução, que era liderado por João Cândido, já tinha alguns planos de revolta, pedindo para que as punições físicas parassem e que melhorassem as condições de trabalho nos navios.

Dessa forma, no dia 22 de novembro de 1910, vários marinheiros do navio Minas Gerais se rebelaram contra os seus oficiais, expulsando-os do encouraçado de guerra. Aqueles que não aceitaram sair, como o comandante do navio, além de mais dois superiores, foram mortos pelos marujos.

Neste mesmo dia, juntaram-se ao motim os marinheiros dos outros navios, que viam naquela revolta uma chance de saírem daquela condição em que viviam diariamente. Dessa forma, como estavam em direção ao Rio de Janeiro, a então capital dos Estados Unidos do Brasil (como era chamado), fizeram alguns disparos a orla, mandando um aviso de que o movimento era real e tinha fortes motivações.

Os revoltosos ainda enviariam uma carta ao então governante Marechal Hermes da Fonseca, na qual pediam o fim dos castigos físicos, melhores condições de trabalho e um aumento nos salários que eram dados, ou seja, pediam que as condições escravas para os marujos tivessem um fim. Além disso, a carta ainda exigia a anistia (perdão oficial do governo) para todos os indivíduos que participaram da revolta.

Revolta da Chibata Consequências

Como a situação era incontrolável, o marechal decidiu acatar os pedidos dos marinheiros, suspendendo o uso da chibata. Desse modo, no dia 26 os marinheiros entregaram os navios e as armas, de forma a respeitar o acordo que havia sido feito com o presidente da república. Apesar disso, já no dia 27, antes que qualquer concessão fosse realmente realizada, o governo brasileiro sancionou uma lei que iria contra tudo que havia sido acordado: marinheiros de baixo escalão poderiam ser excluídos da Marinha sem precisarem de um processo legal.

Dessa forma, os marujos foram traídos pelo presidente e foram retirados da marinha todos aqueles que haviam participado do levante. Isso fez com que outro motim tivesse início, ocorrido na Ilha das Cobras, ainda no estado do Rio de Janeiro. Este, porém, já era esperado pelo governo, que reprimiu com violência o movimento, resultando em várias mortes de marinheiros, os quais eram majoritariamente negros.

Contudo, ainda haviam sobrado alguns sobreviventes desse confronto. Desses, a maioria foi mandada em navios para trabalhar no estado do Amazonas, com funções que se relacionavam com a produção da borracha, atividade econômica forte dessa região na época. O resto dos marujos, mais precisamente 18, foram jogados em calabouços na Ilha das Cobras. Como estavam altamente feridos, apenas 2 sobreviveram a esses dias preso, dos quais um deles era João Cândido.

Apesar disso, mesmo após ter sobrevivido a varias tentativas do governo, o maior líder do movimento teve um fim trágico. Por ser considerado louco e desequilibrado, foi internado em um hospício, chamado Hospital dos Alienados, de onde só saiu um ano e meio depois, quando foi absolvido dos crimes que teria cometido na revolta.

A mídia reconheceu João Cândido pela sua força e coragem, o que levou a apelida-lo de “Almirante Negro”.

Curiosidades sobre o movimento

No dia 23 de julho de 2008, o governo brasileiro concedeu anistia para todos os envolvidos na Revolta da Chibata. Nessa mesma data, foi colocada uma estátua do “Almirante Negro”, João Cândido, em uma praça pública no estado do Rio de Janeiro.

No ano de 1975, João Bosco e Aldir Blanc compuseram uma música em homenagem ao líder da revolta intitulada de “Mestre-Sala dos Mares”. Contudo, a letra fora censurada pelo regime totalitário que perdurava nessa época, promovido pelos militares.